
Vou começar este blog com um post sobre profissionalismo, assunto de primeira importância em uma área de TI que sofre de tantos males crônicos, mas que infelizmente anda esquecido pela maioria…
Médicos, contadores e advogados exercem profissões altamente regulamentadas: o caminho para ser chamado de médico, contador ou advogado é bem definido, e os critérios para chegar lá extremamente rigorosos. O mesmo não pode ser dito das profissões de TI – qualquer um, com alguns conhecimentos adquiridos num quarto de adolescente, pode se auto-declarar programador; um currículo bem escrito pode lhe tornar instantaneamente gerente de projetos experiente, apesar de não ter o histórico de sofrimentos indispensável para desempenhar este difícil papel; pior ainda, para ser engenheiro de testes, não precisa comprovar absolutamente nada!
A Sociedade Brasileira de Computação (SBC) acha isso certo, e com razão – veja sua declaração sobre a questão da Regulamentação da Profissão:
- Exercício da profissão de Informática deve ser livre e independer de diploma ou comprovação de educação formal.
- Nenhum conselho de profissão pode criar qualquer impedimento ou restrição ao princípio acima.
- A área deve ser Auto-Regulada.
A argumentação da SBC pode ser resumida da seguinte forma (a justificação do projeto de Lei 1561/2003 pode ser lida na íntegra aqui):
- A informática é uma área fundamentalmente multidisciplinar, e “multidisciplinaridade se constrói sobre as férteis bases da liberdade de atuação profissional”.
- Conselhos de profissão são necessários quando “o exercício de uma determinada profissão poder causar sério dano social, principalmente relativo à exposição de vidas humanas a riscos”. (Não estamos falando de contadores, certo?)
- Conselhos de profissão “tem a função de proteger a Sociedade contra o mau profissional. Os conselhos, portanto, não são Conselhos de Profissionais, e certamente não é sua função dar-lhes proteção. Para isto existem os sindicatos.”
- “[Na Informática] não há interação direta entre Sociedade e Profissional. [...] o cidadão comum raramente contrata diretamente um profissional liberal para desenvolver um software sob medida. O usual é a aquisição no mercado de produtos acabados [...] Neste caso, controle da qualidade de produto é suficiente para atingir o nível de proteção necessário, e para isto não se requer a constituição de conselhos de profissões, e muito menos de se criar reserva de mercado de trabalho.”
- Esta reserva de mercado de trabalho “pode trazer como benefícios à categoria a redução de competição por emprego”, mas “o preço destes benefícios [...] será pago pela Sociedade, que passará a arcar com um maior custo dos produtos devido ao conseqüente aumento de salários e da mais que provável perda de qualidade dos produtos devido à redução do nível de competição”.
- “É assim nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Canadá e Espanha.”
A SBC defende sua posição no Senado com força, como pode ser visto nesta matéria. É claro que o Brasil não precisa de mais um sindicato, e concordo que o exercício da profissão deve ser auto-regulado – mas o que precisa ser feito neste caso é uma revisão profunda do papel da SBC. Deixar de pensar que a questão da regulamentação da profissão envolva necessariamente a criação de um Conselho da Profissão (no sentido “reserva de mercado”), e começar a se posicionar como um fórum de profissionais que tenha por missão justamente de promover o profissionalismo na área de TI. Não é estranho que esta palavra, “profissionalismo”, não apareça sequer uma vez nas páginas do site da SBC? Toda a argumentação sobre a regulamentação parte do pressuposto que apenas diplomas universitários dariam legitimidade a um profissional de TI – nada é falado sobre aprendizado contínuo ou atualização constante dos conhecimentos, elementos cruciais para que um profissional de uma área tão dinâmica como a nossa possa continuar a ser chamado de profissional ao longo dos anos. A SBC não teria um papel a desempenhar em relação a isto? A SBC, sem necessariamente “regular” a profissão, poderia nos encorajar a atualizar regularmente nossos conhecimentos, nos oferecer cursos e palestras em todo o território nacional, nos dar acesso às ultimas publicações, nos encorajar a pensar sobre questões de ética, nos dar meios de melhorar nossas competências técnicas e não-técnicas (nossa área é tão carente dos chamados soft skills…) – ou seja, a SBC poderia simplesmente promover o profissionalismo na nossa área. A missão da SBC me parece demasiadamente acadêmica; a Sociedade teria tudo a ganhar se tivesse um órgão que, além de suas preocupações com atividades de ensino e pesquisa, atuasse como um fórum de profissionais e como o guardião do profissionalismo nas empresas. A causa raiz de todos os males da área de TI é justamente a falta de profissionalismo, e discordo com o argumento da SBC de que “a população não contrata diretamente serviços profissionais para desenvolver suas soluções do dia a dia, e, portanto, não há interação direta entre Sociedade e Profissional”: há interação sim, não de primeiro grau, mas é a Sociedade (o contribuinte ou o investidor) que sofre quando milhões de reais são perdidos em um projeto de TI fracassado.
É assim na Inglaterra!
Uma profissão auto-regulada então, e uma organização para promover o profissionalismo: é assim na Inglaterra! O programa de profissionalismo da British Computer Society (BCS) nasceu em 2003 e é impressionante por sua ambição e seu escopo. Não vou entrar em todos seus detalhes (se quiser saber mais, veja esta página), vou apenas destacar seus pontos salientes:
- A ambição do programa é de fazer de TI uma profissão respeitada tanto quanto outras profissões mais antigas;
- Seu escopo engloba profissionais de TI, membros de outras profissões, organizações profissionais e outros grupos de interesse, profissionais de P&D e provedores de educação e treinamentos;
- TI não é mais apenas uma provedora de soluções técnicas: TI envolve tanto tecnologia quanto informação, e a profissão de TI faz parte integrante do negócio;
- Profissionalismo em TI deve ser medido não apenas com base em excelência técnica, mas também considerando resultados e impacto no negócio, o que significa:
- Melhor uso dos recursos de TI;
- Maior confiabilidade na entrega dos projetos e programas de TI;
- Custos menores;
- Melhor reputação da indústria e da profissão;
- Benefícios econômicos e sociais sustentáveis;
- TI não é apenas uma ferramenta para reduzir custos: TI tem também um papel para gerar receitas.
O programa de profissionalismo da BCS contempla uma hierarquia de padrões profissionais, ou títulos, como por exemplo CITP (Chartered Information Technology Professional), a vantagem sendo que estes podem ser concedidos pela própria BCS, ou por organizações profissionais parceiras seguindo um processo rigoroso, o que resolve elegantemente a questão de multidisciplinaridade. A BCS desenvolveu também o quadro de competências SFIA que contempla várias especializações, de forma que o mesmo título CITP possa ser concedido a profissionais de áreas diferentes como por exemplo gestão de projetos e análise de negócio. Além de servir para a certificação, SFIA é uma ferramenta extremamente útil para as organizações pois pode servir tal qual como pano de fundo para descrições de cargo, planejamento de carreira e desenvolvimento profissional, e gestão de desempenho.
A BCS empregou um esforço considerável para montar um Código de Conduta e um Código de Boa Prática, ambos com orientações factíveis e pertinentes, e exemplos para não sobrar dúvida na compreensão. O Código de Conduta lista os padrões profissionais aos quais todos os aderentes da BCS devem aderir. Veja alguns exemplos:
- You shall carry out work or study with due care and diligence in accordance with the relevant authority’s requirements, and the interests of system users. If your professional judgement is overruled, you shall indicate the likely risks and consequences.
- You shall not misrepresent or withhold information on the performance of products, systems or services, or take advantage of the lack of relevant knowledge or inexperience of others.
- You shall uphold the reputation and good standing of the BCS in particular, and the profession in general, and shall seek to improve professional standards through participation in their development, use and enforcement.
- You shall seek to upgrade your professional knowledge and skill, and shall maintain awareness of technological developments, procedures and standards which are relevant to your field, and encourage your subordinates to do likewise.
O Código de Boa Prática, por sua vez, lista padrões de prática profissional relacionados às “demandas contemporâneas e multifacetadas” encontradas em TI. Ele contém práticas comuns a todas as disciplinas e organizadas nas seguintes categorias:
- Maintain Your Technical Competence
- Adhere to Regulations
- Act Professionally as a Specialist
- Use Appropriate Methods and Tools
- Manage Your Workload Efficiently
- Participate Maturely
- Respect the Interests of your Customers
- Promote Good Practices within the Organisation
- Represent the Profession to the Public
Contém também uma série de práticas específicas por área. Na rubrica “Gestão de Programas/Projetos”, por exemplo, encontramos dicas tais como:
When Managing a Programme of Work
- Advise your customer if, in your opinion, any stage in the programme will not deliver the anticipated benefits.
When Defining a New Project
- Encourage your customer to:
- Explain fully the corporate objectives that underpin the requirement, the scope, issues, constraints and risks to be addressed.
When Closing a Project
- Honestly summarise the mistakes made, good fortune encountered and lessons learned.
A BCS tem até uma política internacional cujo objetivo é de fazer que a profissão de TI seja reconhecida como uma profissão global, e que a BCS seja vista como uma organização profissional de TI de nível mundial. Ela está aberta a cooperar com outras organizações para estabelecer uma profissão de TI verdadeiramente internacional, e promover consequentemente o profissionalismo organizacional na área.
Bom, é claro que o programa da BCS não é perfeito. Tenho pelo menos duas críticas a fazer: a primeira diz respeito ao Código de Boa Prática que lista uma série de práticas a serem seguidas sem necessariamente contextualizá-las. Um bom profissional não segue boas práticas, ou melhores práticas, simplesmente porque são boas ou melhores práticas; a primeira coisa que ele faz é entender o contexto da sua atuação para depois escolher e customizar práticas adequadas a este contexto. Em outras palavras, não existem melhores práticas – existem apenas boas práticas adequadas ao contexto. A segunda crítica tem a ver com a importância dada às certificações profissionais oficiais: a BCS cria assim de fato um mercado de treinamentos e certificações, com um risco real de ver empresas e profissionais se preocuparem mais com canudos de papel do que conhecimentos e experiência. A Fundação ISEB está ciente do problema, mas na minha opinião mais deve ser feito à respeito.
Mas os resultados estão aí: a BCS tem 65.000 integrantes em mais de 100 países, enquanto a SBC, num país do tamanho do Brasil, tem apenas 4.000 sócios… As empresas na Inglaterra estão começando a perceber o valor do programa de profissionalismo da BCS; cada vez mais vagas de emprego são anunciadas exigindo algum título ou alguma certificação da BCS. Empresas como a IBM ou a Deloitte mantêm parcerias institucionais com a BCS, oferecendo assim aos seus empregados a possibilidade de integrarem automaticamente a BCS, com todos os benefícios que isso implica: dezenas de eventos e palestras grátis cada mês, inúmeras oportunidades de networking, acesso a uma tonelada de publicações online e offline, a possibilidade de integrar e de participar ativamente da vida de grupos de interesse ou grupos regionais… Me juntei à BCS em 2001, e posso dizer que foi um grande diferencial na minha carreira – em entrevistas de emprego, por exemplo, sem contar tudo o que aprendi e todas as pessoas que conheci organizando eventos todos os meses para a Filial Londres/Norte. Olha, um programa como o da BCS, ambicioso e moderno, faz bem à profissão e faz bem aos profissionais.
Uma dimensão ética
A grande Professora Karen Spärck Jones (que tive a honra de conhecer em Cambridge, onde fui aluno do seu marido Roger Needham) foi entrevistada em 2007 por Brian Runciman, editor da BCS e autor do divertido blog oddIT. A íntegra da entrevista pode ser lida aqui, mas veja o que Karen Spärck Jones tem a dizer sobre profissionalismo:
BR: BCS is pursuing professionalism in IT - what are your thoughts on this?
KSJ: I certainly think that professionalism is very important. I took part in one of the Thought Leadership debates, about security and privacy, and I was having an argument with a young fellow there. He was slightly surprised that I said that to be a proper professional you need to think about the context and motivation and justifications of what you’re doing.
A true professional will think like that. With ID cards, for example, I was concerned that people would treat it just as an opportunity to do a good software job, if the government’s got a sufficiently good idea of what it wants. But things like that have a fundamental effect on people’s lives and being a true professional means that you must contextualise your work.
BR: Is there an ethical dimension there?
KSJ: I think there is. This chap, who in many ways was thoughtful, said that his organisation only thinks about what the spec is and whether they can do a good job of it - what I call the first layer of being professional. But the second layer is the rationale for what you’re doing.
You see I could probably write a very good program for choosing people to be killed for some reason, selecting people from a population by a particular criterion. But you might argue that a true professional would say, ‘I don’t think I should be writing programs about this at all.’
The point is that there is an interaction between the context and the programming task itself. And as we know with the privacy debate, getting the system architecture right is extremely difficult. You need a deep understanding of what the whole thing is about to get that right and to appreciate that it still won’t be perfect.
You don’t need a fundamental philosophical discussion every time you put finger to keyboard, but as computing is spreading so far into people’s lives you need to think about these things.
O que fazer na prática?
Na prática, como vimos, há a necessidade de ampliar o papel da SBC para ir além das preocupações acadêmicas e começar a engajar com as empresas brasileiras em um diálogo acerca de profissionalismo. A questão da regulamentação tem de ser encerrada uma vez por todas com a posição final que TI deve ser uma profissão auto-regulada, e um novo capítulo aberto para tratar de profissionalismo. Por que não cooperar com a BCS para tirar proveito da sua experiência e do trabalho de reflexão que ela fez?
Agora, na ausência de um órgão guardião do profissionalismo no Brasil, o que o gestor de TI pode fazer para promover e manter um certo nível de profissionalismo dentro da sua organização? Seguem algumas sugestões:
- Crie uma cultura de aprendizado contínuo – encoraje seu time a se atualizar o tempo todo, ler livros e artigos, participar e dar palestras…;
- Disponibilize livros, artigos e outros recursos para a sua equipe;
- Assegure-se que todos no time têm uma visão do todo, que entendem o contexto onde atuam e relembre-lhes regularmente de pensarem nas implicações do que fazem;
- Inicie conversas abertas sobre questões como profissionalismo ou ética, apresente suas idéias e escuta as dos outros;
- Faça um trabalho colaborativo com seu time para escrever um Código de Conduta adequado para sua organização.
Não custa muito, e faz uma grande diferença…
O que você acha? Nossa profissão deve ser regulamentada? Qual é sua visão sobre profissionalismo? Deixe um comentário abaixo!
Foto: Aral Balkan