
Como tinha anunciado em um post anterior, participei do evento “Software Innovation” nos dias 6 e 7 deste mês em São Paulo. Parabéns à equipe da Converge Comunicações pela organização – achei o evento muito bom, com conteúdo de primeira (exceto duas ou três apresentações cujo único objetivo era vender um produto ou uma empresa – ninguém quer pagar para assistir comercial, certo? Mas não vamos perder tempo com isso…)
Nas apresentações, as empresas que se destacaram foram sem dúvida a SalesForce (óbvio!), a IBM, a Google, a Microsoft e a SaleSolution. Vamos lá:
- Enrique Perezyera, da SalesForce, apresentou um histórico dos modelos de arquitetura de software usados ao longo do tempo, começando com o mainframe nos anos 60, seguido pela arquitetura cliente/servidor nos anos 80, e os aplicativos baseados em Cloud Computing agora. Três grandes benefícios no novo modelo: (1) não há mais necessidade para despesas de capital (CapEx) – o fornecedor é quem deve se preocupar com infra, não o cliente; (2) baixos custos operacionais (OpEx); e (3) software no modelo SaaS é escalável, ele cresce com seu negócio. À medida que projetos de software tradicionais fracassam na maioria das vezes, no modelo Cloud Computing espera-se um retorno de mais de 50% nos primeiros 12 meses. Realmente, a SalesForce é uma empresa pioneira nessa área, e é impressionante como conseguiu chegar, em 10 anos, a 55.000 clientes (dos maiores, como o Citi Group, aos menores com meia dúzia de usuários) e 1.500.000 usuários ativos. Sua plataforma de desenvolvimento permite agilidade e flexibilidade nas customizações e integrações, invalidando a objeção geralmente levantada que diz que SaaS não é flexível nem customizável. E para confortar os mais céticos, todos podem acessar a página trust.salesforce.com para checar o status dos servidores e os tempos de resposta.
- Para Richard Chaves, da Microsoft, o que realmente conta é o poder de escolha do cliente. A estratégia da Microsoft é baseada na oferta de um conjunto de software e serviços (“Software + Serviços”), incluindo SOA, Web 2.0, SaaS e RIA (Rich Internet Applications), dando ao cliente a opção de usar Cloud Computing como extensão do que ele fez até agora, não como uma nova tecnologia que o obriga a jogar tudo no lixo. Em outras palavras, a Microsoft vê o modelo SaaS como “uma evolução, não uma revolução”. A apresentação do Richard incluiu uma demonstração do Windows Azure, a platafora de Cloud Computing da Microsoft. Quem quiser saber mais pode ler isso.
- A apresentação do Cezar Taurion, da IBM, focou na questão de infra-estrutura: o modelo SaaS, na realidade, representa a terceira camada (em termos de nível de abstração crescente), em cima de PaaS (plataforma como serviço – por exemplo banco de dados ou ambiente de desenvolvimento) que, por sua vez, fica em cima da camada IaaS (infra-estrutura como serviço: servidores, storage e hardware em geral). A infra-estrutura é um elemento crítico na cadeia de valor pois o cliente vai confiar no provedor e, portanto, precisa de garantias em termos de segurança dos dados (disponibilidade, resistência a falhas e desastres, e confidencialidade). Em outras palavras, a hospedagem deve ser feita por especialistas (a IBM, por exemplo!) – e não é à toa que investidores de capital de risco não querem bancar a compra de infra-estrutura nos projetos SaaS: não faz sentido. Para Taurion, SaaS representa uma mudança cultural onde acontece de fato uma transferência de risco entre o gestor de TI e o provedor de software: o gestor de TI tem agora um novo papel: focar no negócio (ele se transforma em gestor de soluções, ou gestor de inovação) e deixar o provedor se preocupar com a infra. É interessante notar que o gestor de TI que não colabora com o negócio pode ser agora facilmente “contornado” pelos usuários: a implantação da solução, de fato, não necessita mais de competências técnicas ou do envolvimento da equipe de TI, donde o papel maior dos usuários, e o sucesso do modelo “try before you buy”. As aplicações mais comuns atualmente no modelo SaaS são aplicações horizontais como vendas, colaboração ou RH, e são adotadas principalmente por pequenas e médias empresas; a evolução natural do modelo, passado o processo de aprendizado, conduzirá na oferta de aplicações mais complexas, incluindo aplicações verticais (frameworks para indústrias específicas), com maiores possibilidades de customização, para o mercado corporativo.
- José Martins, da Google, apresentou a plataforma Google Apps que agora suporta Java. Como exemplo da escalabilidade das aplicações SaaS, citou o Google Moderator que foi concebido para postar e votar sobre perguntas a serem feitas em reuniões pequenas – na faixa de 50 pessoas – e foi inesperadamente usado pela Casa Branca no contexto do discurso dos 100 dias de Barack Obama: centenas de milhares de pessoas postaram perguntas, e mais de um milhão de votos foram registrados.
- Renato Romeu, da SaleSolution, observou que o modelo SaaS de fato inverteu a pirâmide dos custos de aquisição de software: no modelo tradicional, o maior custo (44%) provém da implementação, das customizações e do treinamento, enquanto licenças representam apenas 9% dos gastos. No modelo SaaS, temos 68% de “assinaturas” e 32% de implementação, customização e treinamento. E, é claro, no modelo SaaS não temos custos de equipamentos, mão de obra (TI) ou manutenção. Romeu também falou do que eu chamaria o “paradoxo do desempenho crescente” onde os tempos de resposta dos servidores diminuem com o aumento das transações. Explicação: a SalesForce nunca deixa um servidor rodar a mais de 50% de sua capacidade, portanto, à medida que o volume das transações aumenta, novos servidores são acrescentados. Ainda no quesito infra-estrutura, o Romeu fez um paralelo interessante com bancos para responder à preocupação sobre hospedar seus dados no data center de um terceiro: meu dinheiro está mais seguro no banco, ou debaixo do colchão? Acontece a mesma coisa com os meus dados: eles estão certamente mais seguros no data center de um provedor com excelente reputação.
- William Oliveira, da Oracle, levantou uma questão pertinente para fornecedoras de software: considerando um ciclo de depreciação de 3 anos, a migração do modelo tradicional para o modelo SaaS significa uma queda de receitas de licenças para um terço do valor anual atual. Wall Street não pode aprovar…
- É por isso que a Oracle (80% das receitas provém da venda de licenças) não pode ter o mesmo compromisso com SaaS que a Benner (18% de licenças). Segundo Severino Benner, a empresa está re-escrevendo todo o código-fonte do seu ERP para se adequar melhor ao modelo SaaS, usando os conceitos de “processo” e “papel” que permitem maior flexibilidade e customização para os usuários.
- Para Mauricio Paiva, da Distribuidora SaaS, o modelo é atrativo para pequenas e médias empresas. O grande desafio para os anos que vêm é amadurecer a oferta para penetrar o mercado corporativo.
- O Leandro Lopes, da L3, apresentou um case interessante onde uma solução de CRM foi implantada como serviço numa organização do terceiro setor, a Liga Solidária (veja este vídeo). Um belo exemplo do atrativo do modelo e do impacto que ele pode ter, incluindo um aumento drástico no número de doadores. Um projeto de CRM clássico teria sido caro demais, e provavelmente nunca teria sido implantado nesta ONG.
- Paulo Gabech, da Serasa, apresentou outro case representativo: o da nota fiscal eletrônica. Segundo ele, comparado com o modelo tradicional, SaaS oferece maior flexibilidade, fácil integração com outras plataformas (SOA e web), uma redução do custo total de aquisição (TCO) e uma maior independência do fornecedor. Do outro lado, os limites do modelo consistem no alto custo das customizações e da integração com sistemas legados, assim como o risco de segurança da informação com os dados hospedados no (ou pelo) fornecedor.
- Pedro Bicudo, da TGT Consult, observou que o modelo de negócios de SaaS é baseado em soluções oferecidas na modalidade de um-para-muitos, com o pressuposto que é uma “commodity”, ou seja, fácil de acesso e fácil de utilização – portanto, SaaS “não é qualquer serviço”. Similarmente, SaaS “não é para todos os clientes”: o cliente precisa confiar (pois não percebe problemas), e o cliente “não sabe onde fica, quem conserta, como funciona”. Portanto, SaaS deve ser visto como uma nova alternativa de sourcing, sabendo que alguns desafios permanecem sem resposta, particularmente a questão de continuidade do serviço em caso de falência ou aquisição.
- Por fim, para o Delmar Assis, da Informática Corporation, Cloud Computing não é nada mais do que o “velho” ideal de Mobile Computing – acesso às informações e aos aplicativos a qualquer hora, em qualquer lugar.
Olá,
Estou muito interessado e aguardando para ler a sua visão sobre o papel do gestor de TI, seguindo a série “O papel do gestor (1): O folclore”.
Abraços,
Ronan Lins